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TEOLOGIA ORGANICA

RESENHA

Teologia Orgânica

GEBARA, Ivone; BINGEMER, Maria Clara. A mulher faz teologia. Petrópolis: Vozes, 1986.

Joílson Santos Amorim

A partir da ideia de que “Teologia Orgânica” é também uma teologia das causas vitais. Pergunta-se o que caracteriza o fazer teológico da mulher? Na obra A mulher faz teologia constitui uma grande contribuição para se pensar e desenhar uma sociedade evoluta distanciada das chamadas idiossincrasias patriarcal. O presente livro é dividido em duas partes, a saber: A mulher faz teologia um ensaio para reflexão, e A Trindade: a partir da perspectiva da mulher.

A cosmovisão Gebariana permite evidenciar que a história da teologia Cristã é também uma história de uma ciência dominada tipicamente pelos homens, por isso tornou-se necessário atentar para a presença feminina no mistério de toda criação. A guinada do comportamento feminino frente às questões sociais posicionada pelas mulheres provocou profundas mudanças nas estruturas sociais. Esse novo “fazer teológico” levanta o olhar da autora para á historia da situação da mulher na América Latina e em especial no nordeste brasileiro.

Justamente nesse ambiente grotesco e desigual que se desenvolve todo desregramento de tensões políticas de ordem econômicas e religiosas. Onde a força do capitalismo arrocha de forma cruel e desumana, agindo de forma a “instrumentalizar a cultural popular”, servindo de base para o machismo e a submissão da mulher. Embora Gebara possa sentir-se uma mulher um tanto quanto privilegiada, ela fala como se de fato sentisse essas dores de parto.

Há um profundo mergulho na figura da mulher nordestina, que na sua grande maioria não possui formação universitária, e para se compreender esse fato será preciso utilizar métodos teológicos onde seja possível identificar as fontes e armas de domínio social utilizado pelo imperialismo ocidental retirado de uma leitura patriarcal das sagradas escrituras. Gebara (1986) observa que a mulher assumiu nas sociedades diversos papeis que vão desde conselheiras à interpretes bíblicas tudo apenas utilizando suas vivencias diárias.

Podemos citar o exemplo utilizado pela autora o papel das mulheres candomblecistas. No terreiro ela é o centro das decisões. É ela quem provém o alimento espiritual e material. No cristianismo isso não acontece. Justamente por ser Cristo a figura central e seus apóstolos, a mulher terá o papel de adjutora. Nesse contexto destaca-se também o papel das mulheres que exercem a função de catequistas que sofrem uma imposição sacerdotal oriunda de uma leitura patriarcal dos textos sagrados que, mas oprimi do que liberta. Essas catequistas fazem um mergulho em um Cristianismo revolucionário e libertador gerando assim uma nova cosmovisão de vida aos jovens.

A partir de 1970 esse perfil feminino ganhará forças aqui no Brasil principalmente pela inserção da mulher no mercado de trabalho ajudando a forjar esse novo “fazer teológico”. Algumas passagens bíblicas, principalmente à figura de João e a figura de Maria influenciam o processo de releitura das sagradas escrituras, a partir de uma imagem de um Deus mais próximo das comunidades mais pobres trazendo esperanças de uma vida mais digna.

Gebera (1986) faz uma divisão entre fazer teológico masculino e o feminino. Observou-se que no “fazer teológico” masculino as leituras das sagradas escrituras partiram sempre de uma interpretação oriundas da cultura patriarcal judaica que carrega sobre si a ideia de um Deus masculino que faz distinção entre gêneros. Em contra partida, a ideia do fazer teológico feminino reivindica um leitura mais humanizada e mais próxima das questões de desigualdade social, partindo sempre das ideias revolucionarias e liberadoras de Jesus Cristo nessa perspectiva, a teologia feminista se distancia de um simples processo de condução de conhecimento, a mulher agora não mais se cala como fez durante séculos.

A autora observa uma retomada de comportamento de ações oriundas de uma sabedoria nata que opera a partir de uma tríplice linguagem, “ora denunciadora, ora como canto de esperança, ora como lamento”. A inserção da mulher no mercado de trabalho despertou seus sentidos para as lutas de classes mexendo com a consciência da mulher inclusive sua fé. É possível perceber que a mulher possui uma abertura maior para o plural, e o diferente. O exemplo das mães da praças de Maio na Argentina podem ser um exemplo desses novos movimentos femininos.

Dialogando com Gebara, M. C. Bingermer na segunda parte da obra apresenta uma Trindade a partir da perspectiva da mulher, observa-se a presença de categorias feminina em todas as três pessoas da trindade. Bingermer inicia sua reflexão nos convidando a percebemos que existe um lado feminino de Deus que, de alguma forma, foi desprezados pelas leituras judaicas patriarcal. Bingermer irá desenvolver um argumento teológico que introduz a mulher na sociedade de forma igualitária

Observa que o mistério da existência de Deus não se postula a partir de uma ideia de superioridade do masculino sobre o feminino, para as autoras, o que existe é uma harmonia entre os sexos. Porém, será preciso descortinar esse principio que foi ofuscado pela cultura patriarcal Judaico Cristã oriunda de uma fé gerada a partir de uma leitura patriarcal excluindo o sacrifício vicário e totalizante de Cristo.

A tarefa desse texto será decodificar dentro da própria escritura sagrada os aportes teóricos que sejam capazes de justificar tal presença e os motivos pelo qual essa opressão é usada durante séculos. As autoras fazem questão de usar como objeto de pesquisa a figura da mulher Latino Americana que se tornou refém dos ricos homens machistas que utilizam textos sagrados como arma de dominação social. Esses argumentos apresentados podem ser compreendido também a partir de uma perspectiva antropológica, sociológica, e no contexto global.

A linguagem reverberada no ocidente que traz referências masculinas de “Pai, Senhor, Todo Poderoso, Forte, guerreiro e filho” foram ganhando forças e criando a ideia de um Deus tipicamente masculino. Torna-se necessário para as autoras explicar onde e o porquê que estas categorias se solidificaram ao longo do tempo. Em primeiro lugar suas origens partem das sagradas escrituras onde se é possível perceber o grau de superioridade entre masculino e feminino alimentadas pelas tradições javistas e sacerdotal. A referencia da mulher criada após o homem, cria um estereótipo da mulher submissa ao homem, gerando uma espécie de dependência “ontológica” criadora da ideia que somente o homem possui a imagem e semelhança de Deus, passando a ideia de um Deus a partir de uma perspectiva masculina de Andro-morfo.

Outro problema levantando pelas autoras é a separação entre céu e terra que corresponde ao principio utônico e urano a filosofia Grega, ou seja, categorias mitológicas do mundo Grego, a religião Judaica reconfigura na figura de Jesus de Nazaré uma perspectiva masculino tornando-se imagem e semelhança de Deus. Podemos perceber que esse pensamento se encaixou com o perfil do homem Latino Americano dominado pelo Capitalismo.

Esse texto teve o objetivo de diagnosticar que esses dualismos não gozam de base nas sagradas escrituras. O processo de leitura de uma nova hermenêutica bíblica ira fornecer elementos capazes de justificar Deus não somente a partir de uma perspectiva masculina.

Para as autoras uma teologia trinaria deveria se sustenta na palavra misericórdia que aparece varias vezes nos livros do AT. A palavra misericórdia vem da palavra rehem que significa seio materno, ou seja, lugar de gestação do corpo feminina.

Essa visão de seio materno avança no processo de novas características de referencias da um Deus bíblico. Um exemplo de um Deus que aparece como característica de “mãe geradora” esta contida na palavra Ruache presente no novo e no antigo testamento.

O mistério de Jesus Cristo é para as autoras uma quebra de paradigma nessa leitura patriarcal com base no comportamento de Cristo e nas relações sociais mantidas por ele, é possível ver nos evangelho como a mulher torna-se figura central em sua trajetória a figura feminina tem sempre lugar de destaque no ministério de Jesus Cristo.

As autoras nos possibilita entender que há na natureza de Jesus Cristo uma dimensão feminina, chegando a citar os vários papéis que ele assumiu em seu curto espaço de tempo, desde o período da infância, até a dor de uma mãe “quando perde um filho na morte de seu amigo Lázaro”. O espirito Santo é também citado pelas autoras como uma nova dimensão feminina, possibilitando entender uma nova dimensão matriarcal.

Para Bingermer na trindade é possível compreender um processo capaz de condensar tanto a pluralidade, quanto a alteridade de Cristo sem que faça distinção entre masculino e feminino. O mistério da trindade é de fato algo composto por vários elementos que não se permite ser representado por apenas um gênero, ou seja, o masculino. Tanto a maternidade quanto a paternidade é manifesta no Deus trino e essa manifestação é acima de tudo liberatória e nunca opressiva.

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